O SIGNIFICADO DA VIDA

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Índia da equipe de transição de Bolsonaro foi moradora de rua, atriz e atleta antes de ingressar no Exército Brasileiro.



Moradora de rua, vendedora de livros, atriz, atleta, fisioterapeuta e primeira índia militar. Todos esses rótulos passaram pela vida de Silvia Nobre Waiãpi, de 42 anos, uma das quatro mulheres entre os 28 homens que integram a equipe de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), até agora. Ela nasceu na aldeia da etnia Waiãpi, no Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa. Silvia Nobre foi adotada aos três anos por uma família de Macapá e começou a estudar com sete anos. "Eu passei a minha infância inteira puxando a saia das professoras e pedindo, por favor, para eu hastear aquela bandeira (do Brasil), mas ninguém deixava. Só as crianças brancas e não índias podiam", contou ela chorando, em uma entrevista a Jô Soares, em 2011. "Eu prometi para mim mesma que, acontecesse o que acontecesse, o meu País um dia iria se orgulhar de mim", disse. Segundo ela, foi isso que a impediu de se envolver em "coisas erradas" nos dois meses em que viveu nas ruas do Rio de Janeiro mais tarde. Aos 14 anos, ela deixou na aldeia a filha que teve com 13 (o que é comum na sua cultura) e fugiu para a capital fluminense em busca de estudo. Sem casa nem dinheiro, vendeu a única coisa de valor que tinha nas mãos, uma pedra que acreditava ser mágica, para conseguir comer por alguns dias. Logo depois conheceu um ambulante, cuja sobrinha a abrigou em sua casa. De porta em porta, passou a vender seus livros velhos, o que continuou fazendo quando arrumou um emprego na editora Círculo do Livro. Foi incentivada a estudar artes, começou a declamar poesias e ganhou prêmios por elas. Nesse meio tempo teve mais um filho aos 15 anos e uma filha aos 17 - hoje tem também uma neta. Ingressou em um grupo de atores, se formou em artes cênicas com 24 anos e trabalhou na TV Globo, como aderecista do departamento de figurino, preparadora de elenco da minissérie "A Muralha" e pesquisadora de texto na novela "Uga Uga", ambas estreadas em 2000. As funções lhe renderam papéis como atriz. O principal veio mais de uma década depois, como a empregada doméstica Domingas na minissérie "Dois Irmãos", exibida em 2015. Na obra inspirada no livro homônimo de Milton Hatoum, contracenou com o protagonista Cauã Reymond, que interpretava os gêmeos Omar e Yaqub. "Procuravam uma indígena pra fazer teste e não encontravam. Aí o produtor de elenco lembrou da minha entrevista (com Jô Soares). Quando me chamou para conversar é que ele descobriu que já havia feito outros trabalhos na casa", contou ela. Na época dos primeiros trabalhos na televisão, ela descobriu mais uma paixão, a corrida. Mas não do melhor jeito possível. Após quase ser estuprada na rua enquanto saía para caminhar, pensou: "E se um dia eu precisar correr de alguém?". Dali passou a atleta profissional de atletismo pelo Vasco da Gama e acabou ganhando uma bolsa para estudar fisioterapia na Unisuam (Centro Universitário Augusto Motta), no Rio de Janeiro. Após várias especializações, um trabalho como fisioterapeuta com um grupo de fuzileiros navais a levou ao mundo militar. Tentou entrar para as Forças Armadas pela primeira vez em 2009, mas não conseguiu. Prestou concurso de novo no ano seguinte e passou para Marinha e Exército. Escolheu a segunda opção porque "sua pele é verde oliva", tornando-se a primeira mulher indígena militar.  Desde 2016, Silvia Nobre é chefe do serviço de Medicina Física e Reabilitação do Hospital Central do Exército, em Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro, atividade que exalta nas redes sociais, assim como a cultura e as reivindicações indígenas. Periodicamente, ela retorna à sua aldeia na Amazônia.

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