Embora 70% das
grávidas brasileiras iniciem a gestação desejando o parto normal (Fiocruz), a
taxa de cesarianas no país ultrapassa 60% na rede pública e chega a 90% na rede
privada. A OMS recomenda um teto de apenas 15%. Uma pesquisa do Unicef revelou
que a escolha da via de nascimento não é puramente individual, mas determinada
por barreiras psicológicas, sociais e estruturais.
Fatores Psicológicos e Sociais
Medo da dor e traumas: Relatos familiares de partos desrespeitosos criam o imaginário de que o parto normal é sinônimo de sofrimento. Na realidade, muitas dessas histórias retratam casos de violência obstétrica (como episiotomias e induções desnecessárias).
Desigualdade e Redes de Apoio: No SUS, mulheres optam pelo parto normal pela necessidade de uma recuperação rápida para cuidar da casa e dos filhos sozinhos. No setor privado, a escolha pelo parto normal é motivada pelos benefícios à saúde, permitindo que a gestante contrate equipes particulares para garantir uma experiência positiva.
Laqueadura: No SUS, muitas mulheres aceitam a cesariana apenas para realizar a laqueadura, evidenciando a falta de informação sobre métodos contraceptivos de longa duração (como DIU e implantes) ou sobre a possibilidade de fazer a cirurgia após o parto vaginal.
Barreiras Estruturais (SUS vs. Setor Privado)
Informação no pré-natal: No SUS, o pré-natal costuma ser superficial sobre o trabalho de parto, gerando nas gestantes um sentimento de impotência onde “o médico decide”. No setor privado, as mulheres se preparam mais e costumam trocar de profissional quando encontram resistência ao parto normal. Acesso à analgesia: Enquanto a rede privada oferece alívio farmacológico da dor amplamente, o acesso à analgesia no SUS é restrito a poucos hospitais de referência.
Recomendações do Unicef
Para reverter esse cenário e garantir uma experiência de parto respeitosa e positiva, o Unicef recomenda aos gestores públicos e privados: Qualificar o Pré-natal: Oferecer informações claras sobre o Plano de Parto, manejo da dor e planejamento reprodutivo. Expandir o Acesso à Analgesia: Garantir o alívio da dor e o uso de métodos não farmacológicos no SUS como questão de dignidade.
Incluir Redes de Apoio: Envolver parceiros, familiares e doulas no processo de orientação para apoiar a decisão da mulher. Revisar Modelos de Financiamento: Criar formas de remuneração que não incentivem financeiramente a realização de cesarianas sem indicação clínica.
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