O cientista político Jairo
Marconi Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio, calcula que os
atuais 35 partidos políticos brasileiros se transformem em uns 20, isso já no
ano que vem. Motivo: para ter acesso ao Fundo Partidário (a caverna do Tesouro
que explica por que há tantos partidos no país), a legenda terá de alcançar
1,5% dos votos para deputado federal. Esta campanha é curta; apesar de tantos
políticos desmoralizados por escândalos de corrupção, muitos vão se reeleger
porque são veteranos e seu nome é lembrado. O provável aumento de abstenções,
brancos e nulos dificultará a tarefa de quem não é conhecido. E qual o
interesse de muitos donos de partidos em mantê-los sem ter o Abre-te Sésamo da
riqueza?
O papel da elite
Não, Zeina Latif não faz parte de
grupos para quem a culpa de tudo é “da zelite”. É uma das mais respeitadas
economistas da nova geração. E, exatamente por ser rigorosa em métodos e
pesquisas, deve ser lida com atenção. Em excelente estudo publicado pela
Análise XP, da XP Investimentos, Zeina Latif questiona a elite brasileira,
mostrando as oportunidades que perdeu de liderar o país para o desenvolvimento.
Não vale a pena resumir: o melhor é ler o texto (bem redigido, sem economês, do
tamanho exato para informar e analisar. A elite tem papel central na construção
da agenda econômica dos países. Para o bem e para o mal. Há cerca de 200 anos o
tráfico de escravos foi proibido na Inglaterra, devido a uma iniciativa de
grupos religiosos; algo negligenciado nos livros escolares. A mobilização
começou no final do século XVIII por uma aliança entre protestantes evangélicos
e Quakers, que fundaram uma coalizão abolicionista. O movimento ganhou adeptos,
inclusive as mulheres, que não tinham direito ao voto e cujas manifestações
públicas eram reprimidas. Enquanto isso, pensadores iluministas criticavam as
violações de direitos do homem. Conforme se difundiram na sociedade as informações
sobre os maus tratos aos escravos, cresceu o apoio popular ao movimento, que
foi liderado por William Wilbeforce. Uma bela história. A Venezuela nos anos
1950-70 prosperou graças à exploração do petróleo. O pacto de governabilidade
ou de elites, na democratização em 1958, proporcionou estabilidade política ao
país por 25 anos. O pacto, no entanto, se provou pouco democrático. Dois
partidos dividiam o poder, bem como a receita do petróleo, enquanto bloqueavam
outsiders, em meio à corrupção crescente. O país abdicou de algo essencial no
jogo democrático: a concorrência na política. Como resultado a agenda econômica
sucumbe. A crise da dívida da década de 1980 na América Latina pôs fim à
estabilidade política. Apesar de o país ainda sustentar em 1998 – quando Hugo
Chávez vence a eleição – o segundo maior PIB per capita do continente, 2/3 da
população vivia na pobreza. O Brasil não é a Venezuela, mas guarda algumas
semelhanças. O País não soube administrar os ganhos do ciclo de commodities. Na
bonança, não só adiamos reformas estruturais, como queimamos recursos públicos
em investimentos fracassados em meio a retrocessos institucionais durante os
anos populistas de Lula e Dilma. O populismo de Chávez ocupou o vazio produzido
pela elite, em meio a uma sociedade que clamava por renovação. A elite emigrou,
agravando o caos político e econômico. Empobrecida, a Venezuela terminou vítima
de grupos organizados que passaram a controlar o aparelho de Estado,
expropriando a população dos contrapesos institucionais essenciais em uma
democracia. A Venezuela é caso clássico de “maldição do petróleo”. Mesmo com os
alertas, faltou visão da elite no uso sábio dos recursos do petróleo e no
fortalecimento de instituições. Erro que foi evitado pelo Chile, beneficiado com
reservas de cobre, e por Botsuana, com suas minas de diamante. O primeiro tem
PIB per capita de US$25,7 mil (pelo conceito de paridade do poder de compra) e
o segundo, US$18,8 mil; já o Brasil tem US$16,2 mil, segundo o FMI. O Brasil
não é a Venezuela, mas guarda algumas semelhanças. O País não soube administrar
os ganhos do ciclo de commodities. Na bonança, não só adiamos reformas
estruturais, como queimamos recursos públicos em investimentos fracassados em
meio a retrocessos institucionais durante os anos populistas de Lula e Dilma.
Tudo isso com o apoio de muitos grupos que se beneficiaram das benesses
distribuídas e a omissão de instituições democráticas. A crise demanda reformas
urgentes. No entanto, a elite organizada em grupos de interesse resiste. A
defesa de reformas é apenas para as dos outros. A elite do funcionalismo, que
compõe o 1% mais rico do País, bloqueia a agenda de reforma da Previdência e o
fim dos penduricalhos do Judiciário, apesar da grave crise fiscal que ameaça a
estabilidade econômica do País. Segmentos do setor produtivo, com representação
desproporcional no Congresso, não perdem a oportunidade de pressionar um
governo fraco em final de mandato por mais benefícios. A Venezuela é caso
clássico de “maldição do petróleo”. Mesmo com os alertas, faltou visão da elite
no uso sábio dos recursos do petróleo e no fortalecimento de instituições. Erro
que foi evitado pelo Chile, beneficiado com reservas de cobre, e por Botsuana,
com suas minas de diamante. Muitas pessoas da elite – que se aposenta por tempo
de contribuição – condenam a introdução de idade mínima para aposentar, alheias
ao fato de que os mais pobres só têm direito a aposentadoria aos 60 ou 65 anos.
Depois reclamamos dos políticos. A culpa das nossas mazelas não está apenas em
Brasília. O dinheiro acabou e a sociedade não aceita a volta da inflação ou o
aumento de impostos. As reformas são inevitáveis. Entre o avanço e a paralisia,
de que lado estará a elite?
Zeina Latif – Doutora em economia
pela Universidade de São Paulo (USP) e economista-chefe da XP Investimentos. Trabalhou no Royal Bank of Scotland
(RBS), ING, ABN-Amro Real e HSBC. Escreve colunas semanais para o
Broadcast da Agência Estado.


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