Os bloqueios nas rodovias de 20
Estados brasileiros por conta da greve dos caminhoneiros já ameaçam o
abastecimento de carne de frango e suína. Pelos menos 120 dos 180 frigoríficos
de todo o País estão paralisados. Ao todo, 175 mil trabalhadores foram mandados
para casa e o prejuízo estimado apenas com as exportações que deixaram de ser
feitas nestes quatro dias é de US$ 100 milhões, segundo a Associação Brasileira
de Proteína Animal (ABPA). O problema ocorre porque os frigoríficos dependem
diretamente de combustível e outros insumos para funcionar. A Cooperativa
Central Aurora Alimentos informou que vai paralisar totalmente as atividades de
suas indústrias de processamento de aves e suínos em Santa Catarina, Paraná,
Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. A BRF já suspendeu o funcionamento de
quatro unidades e nove frigoríficos pelo mesmo motivo. Nas granjas, os animais
correm o risco de começar a passar fome. Pelo menos um milhão de frangos e
porcos estão ameaçados. Segundo a ABPA, “os bloqueios impedem o transporte de
ração, animais vivos e cargas refrigeradas”. Os produtores explicaram que o
estoque de ração nas granjas não é muito grande; é suficiente apenas para 3 ou
4 dias sem abastecimento regular. “A partir do quinto dia, os produtores já
começam a intercalar a alimentação - dia sim, dia não; dois dias sim, um dia
não - para não ter a falta total”, explicou José Rodolfo Ciocca, gerente de
agropecuária sustentável da WAP. Mas há ainda um outro problema. Com a
paralisação repentina, os frigoríficos, sem ter como dar vazão a seus produtos,
suspendem o abate dos animais. “Começa a haver um acúmulo de animais na
granja”, explica Ciocca. “Os que já estão aptos para o abate continuam
crescendo; isso aumenta a demanda por ração, reduz o espaço físico disponível
por animal, gerando estresse e aumentando sua vulnerabilidade a doenças".
Para se ter uma ideia do tamanho do problema, somente a Aurora Alimentos abate
cerca de um milhão de frangos e 200 mil porcos por dia. Frigoríficos menores
abatem 200 mil frangos diariamente. A produção anual de frango no Brasil é de
6,5 bilhões e a de suínos, 44 milhões. Os animais que já se encontravam na
estrada, em transporte, estão sofrendo com a paralisação, o calor e,
eventualmente, a falta de alimentos. Neste primeiro momento, o problema afeta,
primordialmente, a produção de porco e de frango. O gado bovino em geral é
criado no pasto, com mais espaço e menos dependente de ração, e os produtores
têm como contornar o problema mais facilmente. No entanto, milhares de litros
de leite estão sendo jogados fora diariamente porque não há como fazer o
transporte e tampouco se pode deixar de ordenhar as vacas sob o risco de
desenvolverem doenças. “Estamos gerando um alerta para autoridades e governos
para que se envolvam na elaboração de um plano de contingência nacional para
casos como esse”, afirmou Ciocca: “São milhares de vidas animais sob nossa
tutela e não há um consenso ainda para liberar os caminhões de ração, por
exemplo".
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