O Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do
Ministério Público do Paraná, descobriu uma quadrilha com cargos no alto
escalão da prefeitura de Campo Mourão, no Centro-Oeste do estado, especializada
em cobrar um percentual de devolução sobre os salários pagos a funcionários
comissionados.
A investigação vinha
sendo realizada desde 2013. Implantado desde a posse da prefeita Regina Dubay
(à esquerda na foto), coordenadora regional da campanha de Gleisi Hoffmann ao
governo do Paraná, o esquema poderia gerar uma arrecadação de R$ 1,7 milhão
para a quadrilha durante quatro anos de mandato.
Um diretor da secretaria municipal de Saúde foi preso em
flagrante no final tarde de quarta-feira (5), acusado de peculato e concussão,
quando deixava o órgão com dinheiro recolhido de outros funcionários e se
dirigia à prefeitura para entregar a arrecadação, que ocorria geralmente na
primeira semana após o pagamento do funcionalismo público.
De acordo com o Gaeco,
há indícios de que o recolhimento ilícito de cobrança do percentual de salários
ocorria em todas as secretarias da prefeitura e era gerido “por uma quadrilha
instalada no alto escalão”. Outros funcionários comissionados podem ser presos
nos próximos dias. “Já temos outros nomes suspeitos, em sigilo.
Precisamos, agora,
confirmar quem encabeçava o esquema. Sabemos que esse dinheiro era repassado
para as secretarias, para pessoas do alto escalão da prefeitura. Temos que
prender o mentor de tudo isso”, disse o delegado do Gaeco, Elmano Ciriaco.
Membros da quadrilha devem responder pelos crimes de
peculato, concussão e formação de quadrilha.
De acordo com o delegado, os funcionários comissionados que
repassam parte do salário eram vitimas da cobrança compulsória. Se não houvesse
o repasse em dinheiro, após o depósito do pagamento, eram ameaçados de
demissão.
Devolução era obrigatória De acordo com depoimentos gravados
pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a
devolução de percentual dos salários dos funcionários comissionados na
prefeitura de Campo Mourão ocorria desde o inicio da administração da prefeita
Regina Dubay (PR), em janeiro de 2013.
O pagamento era
compulsório: o servidor era avisado que teria que fazer o repasse e chegava a
receber um pedaço de papel informando a sua classificação na escala de cargos
comissionados (CCs) e o valor que teria de entregar.
Ligações entre ramais internos no sistema de telefonia da
prefeitura também eram utilizadas para lembrar os comissionados sobre o
pagamento. Alguns funcionários, segundo levantamentos da investigação, chegaram
a ser coagidos com a informação de que poderiam perder o cargo caso se negassem
a repassar o dinheiro.
A devolução era mensal. Após ter o salário depositado na
conta bancária no último dia do mês, o funcionário comissionado deveria se
dirigir nos dias subsequentes à sala do chefe de gabinete Raimundo Machado e
entregar o percentual referente ao seu cargo, segundo o Gaeco. Os valores
variavam entre R$ 170 a R$ 350. Na maior parte dos casos, a devolução era feita
em dinheiro que era recolhido em uma caixa de papel.
Em algumas secretarias, a devolução financeira dos
comissionados era recolhida por um funcionário específico, como no caso da
secretaria da Ação Social e na Agência do Trabalhador.
Relato de uma pessoa que
ocupava cargo de confiança na administração municipal detalha que em
determinado órgão municipal o funcionário responsável pelo recolhimento da
devolução no setor recebia em dinheiro dos demais e ao entregar o valor total
para Machado, emitia um cheque.
Alguns comissionados que não conseguiam realizar o pagamento
integral do percentual de devolução, tinham anotado ao lado do seu nome o valor
pago e o restante em débito que deveria ser saldado no próximo pagamento.
A lista ficava exposta
na mesa do chefe de gabinete. Não havia qualquer explicação sobre o destino dos
recursos recolhidos ilegalmente. Apesar de a devolução ser exigida da maior
parte dos funcionários comissionados, alguns conseguiram isenção do pagamento
da taxa.
Um homem que ocupava cargo de direção em uma secretaria
municipal disse que alguns comissionados chegaram a reclamar sobre a cobrança
diretamente para a prefeita Regina Dubay.
A prefeita teria
isentado estas pessoas da devolução. Quase todos os secretários devolviam
percentuais de seus salários, em média R$ 9,3 mil. R$ 1,7 milhão em quatro anos
Com base em levantamento realizado pela Câmara Municipal de Campo Mourão, em
janeiro, os gastos com o pagamento de cargos comissionados atingem a soma
mensal de R$ 700 mil.
O percentual da devolução, em média de 5%, segundo
depoimentos, geraria uma arrecadação anual aproximada de R$ 420 mil para a
quadrilha. Durante o mandato de quatro anos da prefeita Regina Dubay, a cifra
poderia atingir quase 1,7 milhão retirados ilicitamente dos funcionários
comissionados. O volume de dinheiro seria suficiente para a compra de uma frota
de 68 veículos populares, comercializados atualmente no Brasil ao preço médio
de R$ 25 mil.
O mesmo valor poderia pagar o salário de um servidor
municipal, que atua como auxiliar de serviços gerais, pelo período de quase 2,5
mil anos, levando-se em consideração que estes funcionários recebem o salário
mínimo.
Os números podem ser muito superiores. Além da ocupação de
novos cargos criados no decorrer de 2013, a devolução dos salários era embasada
no valor do salário da função comissionada em conjunto com o pagamento de
gratificações que podem variar entre 30% a 100%. É o caso, por exemplo, dos
cargos classificados como CC3, ocupados por chefes de departamentos e
assessores, que recebem gratificações de 100%. Funcionários nomeados para estes
cargos recebem salário de R$ 2.098,25. Com a gratificação paga, o valor final
salta para R$ 4.196,50.
Fobte: Ruy Barroso e Metropolispr
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