A quarta-feira (25/3)
começou com uma mudança silenciosa e terminou com um recado forte: o frete
abaixo do piso mínimo não tem mais espaço no Brasil.
Horas depois da
publicação, em edição extra do Diário Oficial da União (D.O.U), das Resoluções
nº 6.078/2026 e nº 6.077/2026, a Agência Nacional de Transportes Terrestres
(ANTT) levou o novo modelo para o centro da mesa de negociação com
caminhoneiros, no Palácio do Planalto. Resultado: sem paralisação, com regras
mais duras e um sistema que impede a irregularidade antes mesmo de o caminhão
sair.
O encontro, conduzido
pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, com a
participação do Diretor-Geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, e lideranças da
categoria de todo o país, consolidou um movimento que começou dias antes, com a
publicação da Medida Provisória nº 1.343/2026.
Se a MP criou o novo
eixo legal, as resoluções publicadas nesta manhã transformaram a norma em
operação real e imediata.
Os caminhoneiros não
podem pagar o preço da irresponsabilidade e da ganância de quem eleva
artificialmente o preço do diesel. E também não podem continuar tendo um
direito desrespeitado. O piso mínimo do frete é lei, não é opcional”, afirmou
Boulos
O ministro destacou
que o governo intensificará a fiscalização sobre combustíveis e manterá diálogo
permanente com a categoria. Segundo ele, a decisão dos caminhoneiros de não
realizar greve está diretamente ligada às medidas adotadas.
Eles optaram pela
responsabilidade e o governo seguirá ao lado desses trabalhadores, que movem o
Brasil”, completou o ministro
A leitura da própria
categoria reforçou esse cenário. Presente na reunião, o presidente do Sindicato
dos Transportadores Autônomos da Baixada Santista e Vale do Ribeira, Luciano
Santos, uma das lideranças do movimento em Santos, epicentro das mobilizações
recentes, destacou que o avanço nas negociações foi decisivo para evitar a
paralisação.
Quando há diálogo e a
categoria é atendida, não há motivo para greve. O caminhoneiro quer trabalhar,
mas precisa de regra sendo cumprida. O piso mínimo é vida, é o que garante
dignidade e qualidade de vida na estrada”, afirmou
Segundo ele, a pauta
do frete mínimo, reivindicada desde 2018, finalmente começa a sair do papel com
mecanismos concretos de cumprimento. “Ganhamos lá atrás, mas não levamos.
Agora, com a Medida Provisória e a regulamentação, temos condição real de fazer
valer. O governo fez a parte dele. O próximo passo é garantir que isso se
sustente”, disse, ao defender que o debate avance também no Congresso Nacional.
A resposta regulatória
da ANTT foi direta ao ponto mais sensível do problema: onde o frete nasce. Com
a Resolução nº 6.078/2026, o Código Identificador da Operação de Transporte
(CIOT) deixa de ser um detalhe burocrático e passa a ser a condição de
existência da operação. Na prática, isso significa que fretes contratados
abaixo do piso mínimo simplesmente não conseguem ser registrados e, sem
registro, não existem legalmente.
A mudança altera a
lógica histórica do setor. Antes, o controle era feito na estrada, muitas vezes
quando o dano já estava consolidado. Agora, a irregularidade é bloqueada na
origem, no momento da contratação. Integrado ao Manifesto Eletrônico de
Documentos Fiscais (MDF-e), o sistema cria uma trilha única de dados,
permitindo fiscalização em escala nacional e em tempo real.
Já a Resolução nº
6.077/2026 atua onde o descumprimento insiste: no comportamento reiterado de empresas
e contratantes. O novo modelo estabelece sanções progressivas, que começam com
alerta, avançam para suspensão cautelar e podem chegar ao cancelamento do
registro para operar. Mais do que isso, amplia o alcance da responsabilização:
não apenas o transportador, mas também quem contrata, intermedeia ou estrutura
o frete fora da lei passa a responder, com multas que podem atingir R$ 10
milhões.
Durante a reunião, o
Diretor-Geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, detalhou como o sistema passa a
funcionar na prática e o que muda já nas próximas semanas.
O principal objetivo é
garantir a efetividade do piso mínimo. Com o CIOT, o frete irregular não entra
no sistema. E, com o cruzamento de dados em escala nacional, teremos, em pouco
tempo, 100% das operações monitoradas”, explicou
Ele também destacou
que o avanço não é apenas tecnológico, mas estrutural. “Ampliamos em cerca de
2.000% as ações de fiscalização nos últimos meses. Agora, além da presença em
campo, passamos a atuar com inteligência de dados. Vamos seguir o fluxo da carga
para identificar irregularidades antes, durante e depois da operação”, afirmou.
Outro ponto sensível
levado à mesa, e diretamente atendido pela regulamentação, foi o chamado
“travamento do CIOT”. Com a nova regra, o bloqueio deixa de ser exceção e passa
a ser automático para operações fora do piso mínimo, eliminando brechas e
reduzindo práticas que historicamente fragilizavam o cumprimento da lei.
O pacote também
dialoga com um cenário mais amplo. Nos últimos dias, o Governo Federal anunciou
medidas para conter a alta dos combustíveis, como a isenção de tributos
federais e o reforço na fiscalização sobre distribuidoras e postos. Ainda
assim, entidades do setor relatam que o preço do diesel não caiu na mesma
proporção, pressionando os custos do transporte. A resposta construída nesta
semana combina, portanto, duas frentes complementares: reduzir distorções no
custo e garantir previsibilidade na receita.
No âmbito da ANTT,
sempre haverá publicação de portarias no D.O.U com atualização da tabela do
piso mínimo do frete quando houver variação igual ou superior a 5% no preço do
diesel. Isso porque existe um mecanismo chamado “gatilho” previsto em lei, que
determina a revisão da tabela nessas situações. Na prática, isso significa uma
mudança direta no bolso de quem está na estrada: o valor mínimo do frete passa
a acompanhar, com mais precisão, o que o caminhoneiro efetivamente gasta para
rodar.
Essa diferenciação
garante que o cálculo do frete seja justo e aderente à realidade de cada
operação, do pequeno transportador ao grande operador logístico.
Ao final da reunião, o
que se consolidou foi mais do que um acordo pontual. É uma mudança estrutural
no funcionamento do transporte rodoviário de cargas no país. Para o
caminhoneiro, representa maior segurança de que o valor combinado será
respeitado. Para as empresas que atuam corretamente, cria um ambiente mais
equilibrado. Para a sociedade, significa mais previsibilidade no abastecimento
e menos risco de interrupções.
Infraestrutura, no fim
das contas, é feita de pessoas. E, a partir de agora, com regras que começam a
valer antes mesmo da viagem começar.